Relacionamento

Mulher: nem Maravilha, nem Vênus. Pessoa!

Por Kédina Rodrigues

Há uma tendência contemporânea de falar sobre a mulher a partir da ruptura, da disputa ou da reivindicação. Mas talvez o Dia Internacional da Mulher nos convide a algo mais profundo: contemplar a mulher em sua realidade integral. Uma vida real e cheia de verdades que não estão em história em quadrinhos e estereótipos, e sim em histórias reais.

Para além de entender contextos históricos, conquistas, desafios, falar sobre a mulher é muito mais do que trazer frases inspiradoras. É necessário observar a integralidade da presença feminina e seu impacto na realidade atual. Aqui não há um lugar de fala, há um lugar ocupado por uma presença real, de uma mulher.

O universo feminino e a sensibilidade estratégica

Mulheres possuem um universo próprio e diverso, não só por serem mulheres, mas por serem humanas. E todo ser humano carrega um mundo singular: histórias, limites, talentos, medos, vocações e sonhos que não cabem em rótulos. São vidas formadas por trajetórias, contextos, oportunidades e escolhas. Um mundo de força e de delicadeza, de coragem e de recomeços. Eis o universo feminino.

Ao entrar nesse espaço solar feminino é possível compreender que a capacidade de integrar dimensões racionais e relacionais, é pura ciência. Fatores neurobiológicos, por exemplo, indicam que o cérebro feminino apresenta uma conectividade mais intensa entre os dois hemisférios, o que facilita a articulação entre análise racional e percepção intuitiva, permitindo que a mulher transite com mais naturalidade entre a lógica e a empatia nas relações. Além disso, aspectos hormonais, capacidade de gerar vida, papéis culturais de cuidado, tudo isso e outros fatores moldaram um ser que concilia força e sensibilidade, além de sustentar vinculações que agregam um valor estratégico por onde quer que ela passe.

A filósofa, Edith Stein, ao refletir sobre a ética e a vocação da mulher, observa que ela tende a abraçar naturalmente aquilo que é vivo, pessoal e íntegro. Em outras palavras, há uma disposição feminina para integrar pessoas contextos e necessidades como uma competência real: a capacidade de perceber o todo, conectar pontos e sustentar coerência entre intenção e ação.

Dotada dessa sensibilidade, a mulher carrega valores que agregam à sociedade e às organizações de forma concreta. E não se trata apenas de um papel simbólico, nem de números em relatórios, mas de um padrão de atuação que se expressa em habilidades de liderança capazes de convocar colaboração, ampliar a visão sistêmica e imprimir discernimento humano às decisões.

É um universo que ultrapassa as cadeiras acadêmicas e a experiência corporativa acumulada: nasce da vida real, do cotidiano, das escolhas difíceis, dos múltiplos papéis que tantas mulheres conciliam. Mas, ainda assim, esse potencial convive com obstáculos persistentes e por isso seja tão necessário falar de luzes e sombras.

Luzes e sombras

Explorar e evidenciar o mundo feminino não nos exime de olhar, com sobriedade, para realidades que ainda se impõem e para desafios que precisam ser superados, embora já falemos sobre eles há algumas décadas. O aumento do feminicídio, a desigualdade no mercado de trabalho, a sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidados não remunerados, a baixa representatividade em setores e posições específicas e assim por diante, são sombras que atravessam a vida de muitas mulheres.

Relatórios como o Women in the Workplace, da McKinsey (2025), seguem apontando que as mulheres ainda são sub representadas em posições seniores. De modo geral, mulheres no início da carreira tendem a ter menores chances do que os homens de chegar à primeira posição de gestão, o que cria um “gargalo” e desacelera a progressão para cargos mais altos. Outro ponto relevante é que cerca de 60% das mulheres em posições sêniores relatam burnout com frequência, associado à combinação de pressão por resultados e a um nível maior de cobrança e escrutínio sobre seu desempenho. Ao mesmo tempo, mostram que organizações com liderança feminina consistente tendem a registrar melhores índices de desenvolvimento interno e uma percepção mais forte de cultura saudável.

Mas o que existe por trás dos indicadores, para além de políticas públicas e agendas corporativas? Existe uma pessoa, não virtual, mas real. Uma pessoa com nome, história, limites, talentos, medos e coragem. Uma pessoa que, como tanto se tem dito, pode estar onde ela quiser estar: em casa, na empresa, com filhos, sem filhos, empreendendo, estudando, liderando, recomeçando, aposentada, viajando, voando, explorando, com dignidade, tudo o que pode ser.

Porque além de gráficos e estatísticas, há uma vida valorosa. Há um ser humano que merece respeito, admiração e atenção. E diante disso, todos nós ainda temos um compromisso que pode, e deve, ser traduzido em atitudes: ouvir a mulher sem reduzir, reconhecer sem estereotipar, promover com justiça, dividir responsabilidades, proteger com firmeza, e construir ambientes em que a mulher não precise “provar” sua humanidade para ser tratada como tal.

Neste Dia Internacional da Mulher, a reflexão precisa ser mais do que simbólica, precisa ser fundamentada com compromissos diários de remover barreiras para que a mulher não apenas “chegue lá”, mas permaneça, cresça e floresça, como pessoa inteira.

Celebrar esse dia é, portanto, celebrar as luzes, sem romantizar sombras. É honrar a grandeza do feminino sem negar a realidade. É escolher fazer parte de uma cultura onde mulheres sejam vistas, respeitadas e livres para ser: nem maravilhas, nem Vênus. Simplesmente pessoas reais.
Feliz dia, Mulher!

 
Referências

  • McKinsey & Company. Women in the Workplace Report (2025).
  • McKinsey & Company. A diversidade importa: o valor do impacto holístico (2023).
  • FIA Business School. Pesquisa sobre liderança feminina (2023).
  • Harvard Business Review. Estudos sobre benefícios de diversidade de gênero (2025).
  • Stein, E. A mulher: sua missão segundo a natureza e a graça.
  • Stein, E. A ética das mulheres
  • Chesterton, G. K. Ortodoxia.

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